Jean-Luc Godard conheceu a água.
A água parada de um lago, a água que corre em um riacho, a água que nasce borbulhante em uma fonte, a água que sobe ao céu, numa nuvem em campolas.
Conheceu todo o movimento da água, um poeta hidráulico, como disse um filósofo do século XIX.
Poeta que se põe em risco. Que se põe em perigo.
Brilho de uma onda revolta: nos fotogramas de seus filmes se abre um mistério, uma coisa extraordinária.
Como um corpo tão reprimido, tão tomado pela civilização, pode, ainda assim, ser arrebatado, passado de banda a banda, sem defesa, por uma força aborígine?
Uma força sobrevivente de longa duração, remota, antiga, resistente como nunca. Muito bem definida pelo filósofo Ralph Waldo Emerson.
Que encarna com vontade seus artefatos, tanto que vira potência do corpo.
A novidade é sempre Godard? O novo que permanece novo, o clássico.
O estilo vem por uma matéria desconhecida nessa força contraditória, irresistível, ancestral, que agarra e atrai os seus fotogramas.
Para mim, o que mais me impressiona, e que impulsiona, o que mais sinto em seu espírito, é a sua arcaica, prístina, força pré-histórica.
Algo longínquo que, em seu extenso percurso, chega até nós.
Isso também é a ideia da imagem dialética.
Alguma coisa que está muito distante... uma imagem muito distante... e essa imagem, esse signo, vem e vem se transformando até chegar aqui.
De lá até aqui.
Através de tempos heterogêneos.
Tempos diversos.
E com isso aí você tem uma ideia inteira do objeto.
Uma visão que atravessa todo esse tempo.
É como se fosse uma constelação: se você olhar, você consegue ver a nebulosa inteira.
Essa que é a ideia da imagem dialética.
E é o que Godard se presta, no cinema dele, a atravessar, a aventurar.
Colocar um pé na pré-história, um pé que é feito por uma força cega. Uma força que vem e que se impõe naquilo ali.
Godard se deixou atravessar por uma força aborígine.
Toda a diferença do Godard é a entrada dessa força aborígine, dessa força incontrolável, que está presente no cinema dele.
E permite... por isso é que, inclusive, os enquadramentos, a maneira como ele narra as sequências, são todas estranhas ao cinema. Por essa força aborígine que bota em movimento tudo isso.
Nesse sentido, a "normalidade" do Godard é essa propriedade artística de se colocar em contato com essa artéria invisível, que estila a patologia de seu cinema.
Há uma velha definição, e isso é uma visão apenas, entre o talento e o gênio.
O talento é uma força que você domina e que você controla. O gênio é uma coisa que domina você.
Essa é a força aborígine. Ela é uma força que passa por dentro da coisa. E nessa travessia vem a coisa criativa, necessária, o ímpeto em que a consciência chega ao seu ponto extremo.
Quando ela chega ao ponto extremo... aí começa essa coisa, e a consciência precisa passar por esse ponto extremo.
A força é uma coisa que você cria e que, em algum momento, você controla e domina. Se você fizer um passo, a força passa para trás.
Uma força sobrevivente, que tem uma longa duração — a duração de Henri Bergson. Essa duração do pensamento.
A duração que é o fio condutor do pensamento.
Enfim, agradeço a paciência de vocês.
Muito obrigado.
Júlio Bressane
2022.